A REVISÃO DOS CONCEITOS DE ENGENHARIA FRENTE ÀS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
Wilfred Brandt [ Outras Publicações ]

Wilfred Brandt*




Muito se discute sobre as origens e as conseqüências do aquecimento global e sobre a ação humana sobre o mesmo, através do efeito estufa. É óbvio que, primordialmente, deve-se agir sobre a origem do problema como, por exemplo, reduzindo-se as emissões, se forem estas de fato capazes de causar o efeito estufa. Em meio a polemica sobre a origem deste aquecimento global, que o planeta está passando por alterações climáticas todos concordam. E, na certeza desta alteração climática, sabe-se que mudanças econômicas, sociais e mesmo pessoais se farão necessárias.

Partindo-se do pressuposto que as alterações climáticas chegaram, e pior que isso, irão se acentuar nos próximos anos, será preciso buscar também a adaptação a esta nova realidade. Governos e empresas precisam estar preparados para estas mudanças. No meio empresarial, quem sair na frente vai sobreviver e até mesmo crescer dentro deste ambiente inóspito.

Dentro deste contexto, é preciso que a engenharia também se adapte. Os projetos de engenharia são baseados no que se conhece do ambiente pretérito. As previsões climáticas, o comportamento dos rios, e muitas outras características do meio ambiente são baseadas em series históricas. Quanto maior a serie, quanto mais anos de observação, maior a garantia de previsibilidade. Mas se o clima está mudando, será que as series de longos anos vão ser capazes de representar a realidade dos próximos anos?

Na verdade, a própria previsibilidade climática (as tradicionais previsões do tempo) também sofrerá desta falta de “séries históricas” representativas, podendo reduzir sua eficácia. Mas independentemente disso, as previsões indicam aumento da intensidade das chuvas em muitas partes do Brasil, como por sinal vem se verificando. Se os cálculos dos sistemas de drenagem das águas destas chuvas são baseados, por exemplo, em series dos últimos 50 anos, é possível que eles sejam subdimensionados para os próximos 10 anos. Não sendo capazes de transportar toda a água, causarão enchentes, ou serão destruídos pela força das águas. Isso indica que os critérios de cálculo destas estruturas deverão ser adaptados a esta nova realidade, o que também implicará em revisão de métodos construtivos e provavelmente no aumento de custos.

Taludes em solo estarão expostos a regimes de chuva mais severos ficando, portanto, mais sujeitos a erosão ou à instabilidade. Novamente, é evidenciada a necessidade de revisão dos critérios de cálculo de estabilidade e dos sistemas construtivos e de proteção destes taludes. Mesmo taludes naturais poderão não mais ser estáveis frentes à alteração no regime hídrico, como, aliás, vem ocorrendo recentemente.

Mudanças no regime hídrico, com secas mais intensas, implicam na mudança da disponibilidade hídrica. Como conseqüência, as outorgas concedidas com base em series dos últimos 50 anos podem estar superdimensionadas. Possivelmente, haverá falta de água em bacias muito requisitadas e projetos de abastecimento público, agrícolas, minerais ou industriais que não tenham considerado esta possibilidade poderão ficar inviabilizados, ainda que tenham suas respectivas outorgas.

Barragens de abastecimento de água ou de geração de energia poderão ter seu regime alterado. Estudos de viabilidade de empreendimentos baseados em séries históricas podem não refletir a realidade para o futuro, comprometendo seriamente os resultados econômicos aos investidores, isso sem falar no risco de perda da confiabilidade do sistema elétrico baseado nestas barragens. Pior que isso, até mesmo a segurança das barragens pode ser afetada, já que os projetos foram baseados em condições diferentes daquelas previstas para o futuro.

O aumento na intensidade dos ventos também implica em revisões nos critérios de cálculo e projeto de estruturas “esbeltas” ou de coberturas de construções. Até mesmo o projeto de um simples telhado precisa ser melhor avaliado frente às novas condições climáticas.

Descargas atmosféricas mais intensas ou em maior quantidade que as atualmente verificadas indicam a necessidade de revisão nos critérios de engenharia para projetos de sistemas elétricos ou de proteção contra tais descargas.

E o que dizer de nossa famosa referência “em relação ao nível do mar”, se este está alterando cada vez mais rapidamente? No litoral, sistemas de esgotamento sanitário e de drenagem de águas pluviais poderão ficar inoperantes em função da mudança desta referência de nível.

Em um meio pouco acostumado a alteração de princípios como a engenharia, esta necessidade de mudança será difícil de ser assimilada. Como dizer que o cálculo de um sistema não foi baseado em séries históricas como se faz no mundo inteiro? E se não for baseado em séries históricas, em que será baseado? Quais serão os “princípios universais” a serem adotados? Certamente, em todo o mundo a engenharia vai se encontrar diante destes dilemas frente às mudanças climáticas.

Mas situações de crise são também oportunidades. Neste sentido, pode-se prever o surgimento de uma “engenharia da mudança climática”, que seja capaz de inserir em seus parâmetros de projeto as condições climáticas e ambientais esperadas para o futuro. Esta revisão dos critérios de engenharia deverá permear a academia e o meio empresarial nos próximos anos, resultando em uma importante e necessária evolução da engenharia em todo o mundo. E a engenharia brasileira, mundialmente reconhecida, não pode perder este trem da história.

• Wilfred Brandt, engenheiro de minas, é presidente do Grupo Nucleus composto por empresas de base tecnológica na área de meio ambiente, dentre elas a Brandt na área de consultoria e projetos de meio Ambiente, a VOGBR na área de geotecnia e recursos hídricos, e a Terravision na área de geotecnologia e climatologia



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