QUEM VAI SALVAR O PLANETA?
Wilfred Brandt [ Outras Publicações ]

Wilfred Brandt*
 

 

 

 

Quando procuramos o termo “save the planet” (salve o planeta) na internet, surgem cerca de 15 milhões de referências. Dá para ficar uma vida lendo tudo o que se fala sobre esta tão buscada salvação do planeta.

Mas se procurarmos “consumerism” (consumismo) surgirá uma quantidade três vezes menor de referências. Pior ainda se procurarmos o termo “reduce the consumerism” (reduzir o consumismo), citado somente cerca de 250 vezes (6 mil vezes menos que (“save the planet”). Esta relação é apenas um dos indicativos de que fala-se muito em salvar o planeta e pouco sobre o foco, o problema crônico da humanidade.

Relatórios de diversas organizações internacionais vem alertando para o fato de que, se toda a população humana tivesse o mesmo nível de consumo que a população dos países “desenvolvidos”, seriam necessários recursos ambientais equivalentes a cerca de 4 a 5 planetas, ou seja, é evidente que não há como dar este mesmo conforto a todos os atuais habitantes da Terra. Mas pela ótica dos direitos humanos, todos tem o direito de buscá-lo. A par disso, a grande maioria das ONGs internacionais, criadas e sediadas nos países “desenvolvidos”, clama pela suspensão dos desmates e contra os empreendimentos de agricultura mecanizada, infra-estrutura e energia nos países “em desenvolvimento”, em um choque cultural entre aqueles que já estão no conforto de um país desenvolvido e aqueles que se encontram em busca da sobrevivência no restante do mundo.

 

 

Na tentativa de redução desta desigualdade, vem sendo criados alguns “mecanismos de compensação” que, mesmo resultando em algum ganho sobre os impactos ambientais globais, tem mais efeito no abrandamento da crise de consciência dos grandes consumidores, como por exemplo, a compra de créditos de carbono. Revivese assim os conceitos medievais da compra de indulgencias, agora para “salvar o planeta”, boa ação que provavelmente também conduziria ao Céu. Paga-se aos pobres para se ter o direito de poluir mais que eles e manter sua confortável vida e seu consumismo, com a consciência limpa.



Enquanto isso a população chinesa, cerca de 20% da população mundial, até então caracterizada pela vida simples e austera, busca o direito universal de se tornar também “desenvolvida”, o que nos conceitos atuais se traduz pelo consumismo, pressionando em todo o mundo o aumento da produção e exportação de recursos ambientais, tais como minerais e alimentos. Outros povos também se alinham a esta manada, como a Índia, que soma com a China quase 40% da população mundial, ou mesmo o Brasil, que está aos poucos conseguindo fazer com que os miseráveis se tornem pobres e os pobres se tornem classe média, ampliando assim o direito de todos ao sonho consumista. A população mundial saltou de menos de 2 bilhões de pessoas em 1911 para cerca de 7 bilhões em 2011, em um crescimento sem precedentes em apenas um século, principalmente nos países pobres ou “em desenvolvimento”. Toda esta população busca conforto, quando não a simples sobrevivência, que mesmo assim demanda algum consumo.

Esta demanda cada vez maior por recursos ambientais, além de impactar os ecossistemas, é associada ao aumento da produção de resíduos, da poluição atmosférica e das águas, em níveis que já ultrapassam a capacidade de auto-regeneração do planeta. Como conseqüência, tem-se o aquecimento global, as alterações climáticas, a redução dos recursos pesqueiros, extinção de espécies e muitos outros efeitos de ordem planetária ainda pouco conhecidos. 

Fala-se muito no “desenvolvimento sustentável”, mas não há como sustentar a crescente população mundial, com um modelo consumista globalizado. Isso é nsustentável. Assim, infelizmente,sustentabilidade virou muito mais um jargão de propaganda do que um princípio.É natural que diante deste quadro, surjam cada vez mais movimentos para “salvar o planeta”, mormente nos países “desenvolvidos”. O fato é que todos querem ser salvadores de planeta, mas poucos pretendem abrir mão do seu conforto. Fazem coro com os salvadores do planeta os profetas do apocalipse, anunciando o fim do mundo das mais diversas formas, seja interpretando as entrelinhas da Bíblia , seja baseando-se em calendários e previsões de antigos povos americanos que, quando ainda existiam, não pareciam tão importantes para a nossa sociedade colonizadora, que os dizimou.

Então fica a pergunta: quem vai salvar o planeta? A resposta é simples. Ninguém. O planeta e o imenso cosmos onde ele se insere tem seus próprios caminhos, onde a insignificância humana é patente. Se resumirmos toda a historia de cerca de 5 bilhões de anos da Terra em um dia de 24 horas, a vida teria surgido as 6 horas, e o ser humano atual teria surgido a apenas 12 segundos antes da meia noite. No último um quinto de segundo antes da meia noite, é que teria surgido a atual sociedade “moderna” ou mais precisamente consumista. E neste pouco tempo de existência, esta sociedade está sendo capaz de gerar alterações planetárias que, de fato, devem levar a eventos de extinção em massa, quiçá do próprio ser humano que disparou o processo.

Mas, independentemente de nossa ação, outros efeitos planetários e cósmicos podem também criar quadros de extinção que nos atinjam. Nossa sociedade se desenvolveu em meio a um período interglaciar, na forma de “seres especialistas”, que estão inteiramente adaptados a esta condição. Como muitos outros seres que já existiram, somos pouco preparados para sobreviver a mudanças importantes das condições planetárias. Portanto, é muita pretensão acharmos que vamos salvar o planeta.

A Terra já passou por pelo menos 7 eventos de extinção em massa. A mais de um bilhão de anos atrás, quando a atmosfera não continha oxigênio, surgiram seres que promoviam a fotossíntese e geravam como “resíduo” deste processo o oxigênio, “poluindo” a atmosfera com este gás. Como resultado, houve grandes eventos de extinção dos seres anaeróbios (que não vivem em ambientes com oxigênio).

Entretanto, este evento proporcionou a evolução da grande maioria das espécies que habitam o planeta atualmente, todos aeróbios, inclusive o ser humano. A cerca de 250 milhões de anos atrás, uma grande explosão solar atingiu a Terra com raios cósmicos e extinguiu 50% de todas as espécies, e quase a totalidade das espécies marinhas. Sobraram somente seres mais resistentes. Como espécie extremamente especializada, o ser humano não teria chance neste episódio, que pode ocorrer novamente. Poderíamos lembrar vários outros eventos, como por exemplo a extinção em massa dos dinossauros, pela choque de um corpo celeste com a Terra, quando 60% de todas as espécies existentes na Terra foram extintas, evento que também pode ocorrer novamente. E a cerca de 20 milhões de anos, a extinção dos grandes mamíferos com as alterações dos períodos glaciares para interglaciares, quando surge então o ser humano, especializado para a vida nestas condições, e a princípio, basicamente nestas.

Em todos estes eventos de extinção em massa, ficaram os seres menos especializados e mais resistentes, que acabaram por evoluir em novas espécies, evolução esta que resultou inclusive no “homo sapiens”, isto é; nós mesmos. Portanto, não temos de nos preocupar em salvar o planeta. Ele não vai acabar em função do nosso consumismo, pois ele é muito maior que isso. Mas a extinção em massa, inclusive do ser humano, gerada pelos impactos do próprio ser humano, é uma possibilidade real. Na verdade, ao invés de falar em “salvar o planeta”, deveríamos falar em “salvar a própria pele”, ou melhor, em “nos salvar”. Se de fato queremos deixar algum legado para gerações futuras, é bom que pensemos em algo para que existam de fato gerações futuras.

Para isso, a primeira atitude não será a de bradar aos quatro cantos do planeta que os outros o estão destruindo. É preciso olhar, em primeiro lugar, para si próprio. É preciso acabar com a hipocrisia e enfrentar de forma realista alguns temas que todos insistimos em tergiversar na falsidade de um escudo de “protetores do planeta”. São temas “proibidos” porque incomodam as bases de nossa sociedade, tais como religião, direitos humanos e economia de mercado, e por isso se tergiversa tanto sobre os mesmos.

O primeiro destes temas “proibidos” é o controle populacional. Todos sabem que existe lotação máxima para um elevador, para um ônibus, para um estádio de futebol, ou para uma igreja. Mas foge-se do assunto quando se fala em uma lotação máximapara a Terra. É preciso ter coragem de enfrentar a realidade de que não existem mais condições de se manter uma população humana tão grande sobre a Terra. Não há recursos para todos. Como um pasto se acaba quando há excesso de bois, também assim ocorrerá com os recursos do planeta.

O segundo destes temas “proibidos” é o consumo, ou melhor, o consumismo. A sociedade global vive em um sonho consumista alimentado pela lavagem cerebral que a mídia leva aos mais afastados rincões. A propaganda mostra que a felicidade está em ter um bonito carro, que muda um pouquinho de aparência todo ano, para que você se sinta obrigado a comprar outro novamente. Mais que isso, os carros já são feitos para durarem poucos anos, de forma a obrigar-nos a comprar outro mais rapidamente. O mesmo ocorre com a grande maioria dos produtos, muitos deles quinquilharias inúteis tornadas importantes pela mídia ou pela moda. Cada vez mais, se buscam produtos “descartáveis” envolvidos em embalagem igualmente transformadas em lixo no seu primeiro uso.

Não adianta tergiversar também neste tema, falando em sustentabilidade, pois é este consumismo que move a nossa sociedade. Por incrível que pareça, um dos principais índices que indicam boa saúde da economia é exatamente o consumo. E governos se esforçam para manter e garantir o consumo, pois ele gera impostos, gira a economia e cria “empregos” para uma população que cresce e precisa de mais e mais empregos pela falta de um controle de natalidade efetivo.

 

 

A necessidade de se produzir mais e com preços mais baixos leva ao consumo exacerbado dos recursos naturais, e muitas vezes, com economia nos custos de controle ambiental. Estes fatos geram externalidades negativas que não são incorporadas ao preço dos produtos, dissipando-se pela sociedade, e muitas vezes, ficando sem solução. O aquecimento global é um exemplo disso.

Há que se ressaltar o crescente desenvolvimento de novas tecnologias que se pautam na ecoeficiencia, de forma a gerar recursos ambientais e produtos com o menor impacto ambiental. Mas mesmo este esforço ainda é muito tímido em relação ao tamanho do problema, e exigiria muito mais investimento e apoio das instituições oficiais. Se os gastos com armas de guerra no mundo fossem direcionados para pesquisa e desenvolvimento tecnológico com vistas a ecoeficiência, talvez conseguíssemos algo. Mas ainda assim, existem as barreiras, principalmente comerciais, para aplicação de novas tecnologias. Por que invenções como motores a ar, ou a água não conseguem aparecer no mercado? Será que grandes cartéis de petróleo teriam receio de perder sua fonte de renda?

Não será somente a tecnologia para a ecoeficiência que vai resolver nossos problemas. Uma economia mundial baseada no consumismo é como um grande navio que não consegue mudar seu rumo rapidamente. Mas há que se entender que a Terra tem um limite para a quantidade de habitantes, para o consumo de recursos naturais e para a geração de impactos sobre os ecossistemas. Há que se parar com a hipocrisia de “Salvar o Planeta” e ser pragmático: o planeta não precisa de ninguém para salválo.

Mas a espécie humana, esta sim, está precisando de salvação, e isso somente acontecerá se olharmos para dentro de nós mesmos e entendermos que não há como continuar vivendo como se estivéssemos na Disneylândia. 
 

* Engenheiro com especialização em planejamento e gestão ambiental na Alemanha. Fundador da BRANDT MEIO AMBIENTE, que realiza estudos de meio ambiente. Foi consultor da UNESCO, PNUD e PNUMA em programas de cooperação técnica na América Latina e na Europa. Presidente da Fundação Alexander Brandt.
 
 



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